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Tinh` el-rei suas três filhas lindas que mais não havia,
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namora-se da mais velha, que Gaudina se nomia.
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--Quero eu que tu, Gaudina, sejas la minha amásia.
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--Nã digais vós isso, pai, Deus nã lo consentiria,
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oh, cuitado de vós pai, onde voss` alma caía!
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--Poil las penas do Inferno, eu por ti las penaria.
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--Ai, ó minha rica mãe, acudi-me neste dia,
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esse pai, que Deus me deu, agora me cometia.
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--Nã lhe digas tu que não, a ter com el` eu iria,
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vestida com teus vestidos, eu com ele m` haveria.
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--Pois, senhora mãe, que vá, por mim nã m` arriscaria.--
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--Qu` assim `stavas, desgraçada, nunca eu tal cuidaria,
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nem las penas do Inferno, por ti nã las penaria.
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--Quando dormiste comigo, naquele primeiro dia,
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eu minha honra te dei, agora nã la trazia.
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--Maldita seja la filha que lo seu pai denuncia.
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--Chegou-se p`ra sua mãe, que seu pai la cometia.--
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E logo presa, Gaudina, numa torre gradeada,
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aí penou hor` a hora, `té su` hora ser chegada.
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Pela Virgem, mãe de Deus, foi Gaudina mortalhada,
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por um anjo, hor` a hora, foi na eç` acompanhada,
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e tinha na mão direita uma carta bem cerrada.
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Vieram condes, marqueses, mão cada vez mais fechada,
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só nas mãos de sua mãe foi essa carta largada,
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ela s` abriu por si mesma, assim dizia rezada:
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--Nã se me dá de morrer, minh` alma `stá resgatada,
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só se me dá de meu pai, su` alma é condenada.
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EI-rei, quando tal ouviu, todo ficou demudado,
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largou ceptro, largou c`roa, largou todo seu estado.
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--Vem cá, meu filho herdeiro, principia teu reinado,
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qu` eu me vou em penitência, a resgatar meu pecado.--
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