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--Ó mouro, se fores à caça, traz-me uma linda cativa.
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Que não seja de gente baixa ou gente de vilania,
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que seja de condes ou duques ou de gente igual à minha.--
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Lá por essa meia-noite, mouro à porta batia.
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--Abre-me as portas, ó reina, abre-m` as com alegria;
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aqui te trago a escrava, aqui te trago a cativa.--
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--Até te entrego as chaves das salas e da cozinha.
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--Oh triste de mim, coitada, oh triste de mim, mesquinha,
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ainda ontem era condessa e hoje escrava da cozinha!
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--Cala-te, minha escrava, cala-te, minha cativa;
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de sete aias que eu tive, tu será-la mais querida.--
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A rainha andava prenhada e a escrava prenhada ia;
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tanta foi sua ventura que ambas pariram num dia.
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A escrava trouxe rapaz e a rainha rapariga,
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e as ladronas das parteiras trocaram as criancinhas.
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Deitaram o rapaz à reina e à escrava a rapariga.
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A reina, por mais valente, levantou-se primeiro um dia,
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e foi a ver sua escrava, e foi a ver sua cativa:
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--Como estás, ó minha escrava, como estás, minha cativa?
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--Aqui estou, senhora, como uma triste parida.
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--Se a tiveras na cristandade, que nome punhas a tua filha?
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--Punha-lhe Rosa Branca, Rosa Branca da Alexandria;
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também já se assim chamava uma tia que ela tinha.
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Cativaram-na os mouros dia de Páscoa Florida.
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--Tu se ainda a visses hoje, ainda a conhecerias?
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--Eu, conhecê-la, não, senhora, que eu era muito pequenina.
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Só se fôra por uma sina, sina que minha mãe me dizia:
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um cabelo em seu peito sete voltas a cingia
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e no seu pé direito menos um dedo teria.
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--Mal o haja mouro perro e mais la sua tirania;
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eu pedi-lhe uma escrava e trouxe-me hermana minha.--
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Juntaram ouro e prata, tudo que elas poderiam.
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Escolheram dois cavalos, os melhores que o mouro tinha,
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e dali p`r`à cristandade não fugiam, que voariam.
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Chegando à borda do rio, o mouro as avistaria.
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--Deita a barca, barqueiro, grande prémio te eu daria;
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dá-me la barca, barqueiro, dá-me-la por tua vida.
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Val` mais salvar quatro almas do que tudo o que o mouro tinha.--
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Indo elas na cristandade, às trindades tocariam.
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--Ó irmã da minha alma, reza tu em demasia.
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--Reza lá tu, ó minha irmã, naquela terra não havia.--
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