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Chorosa vai a Silvana pelas serras da Hungria.
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Foi cativada dos mouros dia de Páscoa Florida,
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e duzentos perros mouros vão na sua companhia.
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Guitarra leva na mão, mas tocá-la não podia.
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No romance vai dizendo: --Valei-me aqui, D. Garcia;
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se me não valeis agora, não me valerás outro dia.
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O marido veio da caça como de costume tinha;
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puseram-lhe de comer como de costume havia;
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serviu-o a mãe à mesa, o que nunca ela fazia.
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D. Garcia, suspeitoso, por não saber o que havia:
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--Que é isto, minha mãe, que isto está em demasia?
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Minha esposa não a vejo, o que é qu` ela teria?
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--Tua esposa, meu filho, cativada ela ia
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com duzentos perros mouros; vão em sua companhia.
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Ela vai toda contente com muito grande alegria.
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Guitarra leva na mão, muito bem que a cingia,
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e no romance vai dizendo: "Morra, morra D. Garcia".
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--Isso não é, minha mãe, minha esposa não dizia,
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porque era o haver dos meus olhos, a quem eu tanto le queria.
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Não me desejava a morte nem esse poder havia,
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mas eu vou já, minha mãe, tomar uma nova guia:
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procurar-lo à mãe dela, que a verdade me dizia,
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porque entre sogras e noras sempre há uma covardia.--
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Correu todo apressado e para casa da sogra ia.
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--Diga-me aqui, minha mãe, diga pela sua vida:
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onde está minha esposa, e sua filha querida?
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--Tua esposa aí vai por essa serra da Hungria,
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e duzentos perros mouros vão em sua companhia.
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Guitarra leva na mão, mas tocá-la não podia.
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No romance vai dizendo: "Valei-me aqui, D. Garcia,
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esposo da minha vida a quem eu tanto queria;
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se me não valereis hoje, não me valeis outro dia".--
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Ele correu a toda a pressa pelas serras da Hungria,
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avistou-os muito longe, mas ela ainda mais corria.
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Desceu pela serra abaixo o mais depressa que podia,
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e lá no fundo da serra um grande rio havia,
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donde eles não passavam porque o rio os impedia.
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Puseram-se a descansar aonde a água corria;
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a mulher, que o avistou, bem contente ficaria.
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Virou p`r`ò chefe deles, estas palavras dizia:
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--Cavaleiro que além vem uma pinga boberia.
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--Ah, se ele era o teu marido, de boamente se le daria.--
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A mulher baixou o rosto, desfarçou quanto podia:
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--Ele meu marido não era, qu` eu solteirinha seria;
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--Ah, mas se ele era teu pai, de boamente se le daria.
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--Pois ele meu pai não era, qu` eu órfãzinha seria;
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fiquei só de pequenina e eu a ninguém conhecia.
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--Se era algum teu parente, de boamente se le daria.
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--Eu não tenho pai nem mãe nem parentes conhecia.--
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O chefe ficou contente com o que a senhora dizia.
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O cavaleiro chegava, que a mulher conhecia.
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--Deus los guarde, senhores, Deus los queira guardar.
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--Donde era o cavaleiro tão cortês no falar?
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--Eu sou mouro da Mourama e p`ra lá vou caminhar.
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--Se tu és mouro da Mourama, ninha nos hás-de passar.
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--Uma ninha desonrada em meu cavalo não ia.
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--A ninha, se honrada estava, a ninha honrada vinha,
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que a levamos de regalo ò nosso rei da Turquia.
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Passa-nos tu, ó mourinho, passa-nos pela tua vida,
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que o rio é muito grande e a água nos impedia;
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se não levamos a ninha, a vida nos custaria.--
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Passara-os um a um p`rà outra banda do rio.
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Quando ele voltava atrás, a esposa se sorria.
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Ele desfarçava o que pôde e a mulher o que podia.
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Passou-os todos em grupo p`rà outra banda do rio.
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Nenhum deles ficava atrás, que isso era o que ele queria.
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Desde que os passou a todos, o chefe lhe respondia:
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--Mourinho de boa sorte, peço-te por tua vida
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que voltes atrás buscar a senhora que o ouvia,
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e que não tenha desastre na veia da água fria,
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que é o nosso resgate. Peço-te por tua vida.--
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O cavaleiro, voltando, muito bem que se sorria;
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veio ò pé de sua esposa, estas palavras dizia:
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--Minha esposa e cara amiga, muito bem t` eu defendia.--
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O chefe, do outro lado, fazia-lhe gritaria:
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--Passa-nos cá, ó mourinho, passa-nos a cristaninha!
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--Não vo-la posso passar porque era esposa minha!
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--Passa-nos cá os vestidos para resgate da vida!
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--Vestidos não vo-los passo, que os vestidos são da ninha!--
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Montou-a no seu cavalo, p`ra trás com ela volvia.
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--Esposa da minha vida, ainda te vim resgatar.--
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Os mouros foram-se embora, não cessavam de gritar.
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