| |
Sete anos e um dia, sob las águas de la mar,
|
| 2 |
andou la nau Catrineta, sem já haver que manjar.
|
| |
Deitaram coiros de molho, p`ra nesse dia jantar,
|
| 4 |
mas tão duros eram eles, que nã los podem tragar.
|
| |
Tiraram então por sortes qual haviam de matar,
|
| 6 |
foi la sorte sete vezes no capitão acertar.
|
| |
--Vinde vós cá, bom fradinho, lo capitão confessar;
|
| 8 |
vinde, com vossa benção, seus pecados perdoar.
|
| |
--Tenho feito juramento, no meu livro de rezar,
|
| 10 |
a capitão com quem venha, pecados nã perdoar.--
|
| |
Enquanto eles falavam, diz lo capitão maioral:
|
| 12 |
--Vem tu cá, ó bom piloto, meu bom piloto leal,
|
| |
assube-m` àquele tope daquele mastro real,
|
| 14 |
vigia s` avistas terras, [. . . . . . . . . . . . . . . . . . .]
|
| |
seja da banda de Espanha, ou seja de Portugal.
|
| 16 |
--Nem duma, nem doutra banda, nã nas posso avistar,
|
| |
vejo só espadas nuas, com que vos querem matar.--
|
| 18 |
Disse então lo capitão, quase sem poder falar:
|
| |
--Vinde vós cá, bom fradinho, ajudai a me salvar.
|
| 20 |
--Lo que jurei foi jurado, no meu livro de rezar.
|
| |
--Vinde, vinde, bom fradinho, ajudai a me livrar;
|
| 22 |
dou-vos tanto que podereis um mosteiro levantar.
|
| |
--Bem me importa a mim mosteiro, bem me importa cabedal;
|
| 24 |
um frade da mão furada só quer tua alma maioral.--
|
| |
Lo capitão fez três cruzes e oração bem rezada.
|
| 26 |
--Valei-me vós, Mãe de Deus, Virgem Maria Sagrada,
|
| |
abrenuncio de ti, demo, fradinho da mão furada.--
|
| 28 |
Ainda la reza toda nã estava bem acabada,
|
| |
lo fradinho que estoirou, nem trovão de trovoada.
|
| 30 |
Do relâmpago tamanho, ficou la gente assombrada
|
| |
e, quando a si tornaram, do frade ninguém viu nada.
|
| 32 |
E la nau `té `li perdida, vai direito navegada.
|
| |
Disse então lo capitão, já com vozes de maioral:
|
| 34 |
--Vem tu cá, ó bom piloto, meu bom piloto leal,
|
| |
assube-m` àquele tope, daquele mastro real,
|
| 36 |
vigia s` avistas terras, [. . . . . . . . . . . . . . . . . . .]
|
| |
seja da banda de Espanha, ou seja de Portugal.
|
| 38 |
--À popa terras avisto, mas são terras d` areal,
|
| |
são terras de Berberónia, más terras, meu general.
|
| 40 |
--Olha à proa, bom piloto, meu bom piloto leal,
|
| |
vigia s` avistas terras de Espanha ou Portugal.
|
| 42 |
--Alvíssaras senhor, alvíssaras, meu capitão-general;
|
| |
terra avisto de Espanha e terra de Portugal;
|
| 44 |
parecem duas senhoras, postas em seu laranjal;
|
| |
à cabeça, frutos d` oiro, aos pés, fios de cristal.
|
| 46 |
--Essas mesmas são las terras de Espanha e Portugal;
|
| |
lá mataremos la fome, nos frutos do laranjal;
|
| 48 |
lá mataremos la sede, nos seus fios de cristal;
|
| |
por alvíssaras te darei, do meu grosso cabedal.
|
| 50 |
--Nã quero vosso dinheiro, nem frutas, nem água fria,
|
| |
só esta nau Catrineta, isso era lo que eu queria.
|
| 52 |
--Ai, minha nau Catrineta, eu nã te la posso dar,
|
| |
porque quero morrer nela, hei-de-me nel` enterrar;
|
| 54 |
los mastros serão las tochas que me hão-d` alumiar;
|
| |
será lençol uma vela que me há-d` amortalhar
|
| 56 |
e lo casco será tumba e sepultura la mar.
|
| |
Calou-se lo capitão, que terra clara se via
|
| 58 |
e la companha, contente, qual a qual assim dizia:
|
| |
--Las casinhas que lá há, bem nas vejo alvejar;
|
| 60 |
das lareiras qu` elas têm, eu bem vejo fumegar;
|
| |
las padeiras que lá moram, bem nas vejo padejar;
|
| 62 |
fritadeiras que lá vivem, peixinho estão a fritar;
|
| |
las taberneiras lá sinto da pipa vinho tirar.
|
| 64 |
Anda, anda, Catrineta, que já lá imos jantar.--
|
| |
Palavras não eram ditas, ferro la nau a deitar
|
| 66 |
e «Viva! Viva!» da terra e los da nau a bradar.
|