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Lá na côrte de Castella entre los grandes vivia
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nobre e altivo cavalleiro, que era a flor da fidalguia.
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Dom Aleixo lhe chamavam, dom Aleixo se dizia;
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secretario era d` el-rei, e el-rei mui bem lhe queria.
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De amores elle tratava com dama d` alta valia;
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de dia andava-lhe a porta e de noite a perseguia.
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--Sete annos tenho de amores, sete annos e mais um dia;
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vae ser cumprida a palavra, jurou que não faltaria,
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que esta noite á media noite aos meus braços se daria.
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--Tres cousas te peço, Aleixo, que a tu` honra pretendia,
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a uma que venhas só, que não tomes companhia;
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a` outra que tragas armas como é uso e cortezia,
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e que o teu pagem não saiba o que saber não devia.--
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Dom Aleixo que tal ouve, muito altivo ficaria;
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inda o sol ia correndo, elle já se deitaria.
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Meia noie quasi a pino, da cama logo se erguia;
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vestira sáia de malha, seu capacete lumbria;
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na mão espada levava, no cinto adaga escondia.
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Ao sair encontra o pagem que os passos lhe já seguia.
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--Eu só me vou esta noite, eu só, sem mais galhardia;
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de volta serei convosco antes que amanheça o dia.--
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Rua abaixo caminhava, rua acima se volvia,
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vira vir um penitente que mui de perto o vigia.
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--Diz`-me se és alma que pena pelas ruas d` agonia,
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que se vens buscar confôrto, salvação te já daria.
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--Penando de ha muito estava porque ainda te não via.
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Eu sou teu anjo da guarda, o anjo da tua guia,
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que venho aque avisar-te que te esperam á porfia
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sete espadas de emboscada contra a tua bizarria.
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--Outras tantas que ellas fôssem, atraza eu não voltaria;
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com um só palmo de ferro minha vida guardaria.--
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Desapparece o phantasma, que um anjo bem parecia.
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Volta abaxo o cavalleiro e acima logo volvia;
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n` isto as pedras eram tantas que até o ár se movia.
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--Guar`-te, guar`-te, ó meus villões, não useis de vilania;
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arrancae melhores armas, que eu por mim não fugiria;
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ao que espada não trouvesse, a minha lhe eu já daria;
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com um só palmo de adaga todos sete mataria.--
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Avança, e todos por terra, bem mortos os julgaria;
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mas um dos sete que escapa fundo golpe lhe daria.
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Aos gritos do cavalleiro a dama logo acudia.
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--Quem te mata, Dom Aleixo, quem matar-te mandaria?--
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--Mandaste-lo vós, senhora, com traição e covardia!
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Não se me dá de morrer, que vida assim mal servia;
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por minha mãe que é já velha, eu só gritava e gemia.
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Bem certo dizer é esse, que desde infante eu ouvia:
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perde quem anda de noite, ganha quem logra de dia,
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perde quem tem seus amores quando em donzellas se fia.
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Se d` ellas não me fiára, tão cedo não morreria.--
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