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Maravilhas do meu velho eu estou para contar, |
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que me deu real e meio para vestir e calçar, |
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e o resto que crescesse lho tornasse a entregar. |
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--Se eu casar contigo, velho, há-de ser co`a condição |
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de eu dormir em boa cama e tu, velho, nesse chão. |
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Se eu casar contigo, velho, há-de ser co`a condição |
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de eu comer o bom pão alvo e tu, velho, o de rolão. |
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Se eu casar contigo, velho, há-de ser co`a condição |
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de eu beber sempre bom vinho e tu, velho, o carrascão. |
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Se eu casar contigo, velho, há-de ser co`a condição |
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de eu ter vestidos de seda e tu só de camelão.-- |
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Tudo o maldito aceitou, fizemos o casamento; |
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logo no dia seguinte começou o meu tormento. |
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Fez-me passar muita fome, era pior que um judeu; |
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nunca um velho mais socancra neste mundo apareceu. |
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Vindo eu de manhã cedo de regar o meloal, |
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encontrei meu velho morto na porteira do quintal. |
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Vou já chamar as vizinhas para o velho amortalhar; |
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venham logo as carpideiras para no enterro chorar. |
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Ó irmãos da confraria levem-no já a enterrar; |
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façam na cova bem funda, que ele pode cá voltar. |
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Que seja longe do povo, arredado dos quintais, |
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que ele era amigo de peras e de cerejas bicais. |
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Fui chamar o sacristão para os sinos ir dobrar; |
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por dentro ia-me a rir, mas por fora ia a chorar. |
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Lá o meteram na tumba, lá o foram enterrar; |
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a cova ficou bem funda para o velho descansar. |
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Quando voltei para casa já cansada de chorar, |