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benzê-la` |
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--Oiça, padre, as minhas culpas. --Diga, filha, com bem dor. |
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--Eu, meu padre, alguma trago, mas não deixo o meu amor. |
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--Olhe, filha, que há inferno e fogo abrasador. |
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--Tudo isso sei, meu padre, mas não deixo o meu amor. |
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--Diga, porém, seus pecados, sem receio nem temor. |
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--Meus pecados vou dizer, mas não deixo o meu amor. |
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--Ó menina, tenha medo de Cristo, Nosso Senhor. |
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--Eu de Cristo tenho medo, mas não deixo o meu amor. |
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Como pode ser pecado do mundo o maior sabor? |
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Se a natureza o ensina, eu não deixo o meu amor. |
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--Não fale na natureza, que me encho de calor. |
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--Sinta pois o que sentir, eu não deixo o meu amor. |
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Para que é que me ensina a ter de Cristo pavor? |
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Se a natureza obriga, eu não deixo o meu amor. |
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--Menina, lembre-se bem do demónio tentador. |
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--Eu de tudo bem me lembro, mas não deixo o meu amor. |
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--Esta justa, menina, da alma é destemidora. |
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--Embora perca a minha alma, mas não deixo o meu amor. |
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--Já de teimar com você estou cheio de suor. |
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--Teime pois o que quiser, que eu não deixo o meu amor. |
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--Então oiça um conselho que lhe dá seu director. |
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--Diga pois o seu conselho, mas não deixo o meu amor. |
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Lembra-me o meu bem, sinto medo e temor; |
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há mais tempo que eu sei, mas não deixo o meu amor. |
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--Pois tome amores comigo, que eu também sou pecador. |
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--Padre, padre, não me inquiete, que eu não deixo o meu amor. |
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Olha lá o tal padrinho como se faz pregador! |
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Pregue lá dessas a outra, que eu não deixo o meu amor. |
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--Menina, eu lhe darei muitas jóias de valor. |
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--Vá lá dá-las ao demónio, que eu não deixo o meu amor. |
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--Linda moça, em teu dedo este anel eu quero pôr. |
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--Ponha-o em quem quiser, que eu não deixo o meu amor. |
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--Daqui avante, menina, serei seu conversador. |
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--Converse lá outra dama, que eu não deixo o meu amor, |
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que este seu procedimento de Judas é imitador. |
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Como revelação digo que não deixo o meu amor. |
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--Tirana, o teu teimar do meu mal é causador. |
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--Eu não tenho culpa disso, pois não deixo o meu amor. |
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Contra o padre eu já estou cheia de ódio e furor, |
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e já lhe disse a respeito que não deixo o meu amor. |
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--Menina, que hei-de fazer para abrandar seu rigor? |
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--Posso embora ser meiga, mas não deixo o meu amor. |
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--Já em confissões obtive de raparigas favores. |
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--Satisfaça-se com eles, que eu não deixo os meus amores. |
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--Ó menina, fale baixo, pode haver escutador. |
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--Em voz mais alta lhe falo, que não deixo o meu amor. |
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Dou minha alma e coração ao meu bem, salmeador; |
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jurei-lhe eterna amizade, já não deixo o meu amor. |
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--Este punhal que aqui trago será meu despicador. |
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--Mostre, padre, um milhão deles, que eu não deixo o meu amor. |
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Se o padre com o punhal quiser ser p`ra mim traidor, |
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sofrerei contudo a morte, mas não deixo o meu amor. |
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--Menina, hei-de benzê-la quando a sua casa for. |
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--Nunca o padre lá há-de ir, que eu não deixo o meu amor. |
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--Ou por força, ou por jeito, eu serei seu roubador. |
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--Não seja o padre maroto, que eu não deixo o meu amor. |
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--Ah cruel, que assim me deixas com mágoa e dissabor! |
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--É verdade que assim fica, mas não deixo o meu amor. |
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Padre, tome o meu conselho, não se faça impostor; |
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não aperte mais comigo, que eu não deixo o meu amor. |
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--Já que me não queres amar, coma-te um bicho roedor. |
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--Que me coma um milhão deles, eu não deixo o meu amor. |
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--Na fraqueza em que estou, tem a cabeça um vapor. |
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--Eu com isso não me importo, e não deixo o meu amor. |
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--Menina, guarde segredo p`las chagas do Redentor. |
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--Segredo posso guardar, mas não deixo o meu amor. |
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--Então pode-se ir embora, procure outro confessor. |
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--Isso sim, meu padrezinho, mas não deixo o meu amor.-- |