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--Acordai, alta princesa, p`ra receber um recado, |
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uma carta que vos manda o senhor D. Felizardo.-- |
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Acorda logo a princesa com o rosto sobressaltado |
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e perguntou porque tão cedo assim a tinham acordado. |
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--É uma carta que vos manda o senhor D. Felizardo.-- |
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E a princesa em sobressalto principia a carta a ler |
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e a cada linha que passa se sente desfalecer. |
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. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . |
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--A cama que tu me deste é um duro tabuado, |
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o cobertor que me cobre são as telhas do telhado; |
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o comer que me sustenta são suspiros represados; |
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novas não sei de ti e nem si sou noticiado.-- |
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--Aceitai este animal para andar mais apressado, |
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para ver si ainda salvo a vida de Felizardo.-- |
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Às sete horas do dia onze léguas tinha andado |
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e encontrou um cavaleiro em prantos alimentado. |
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--Donde vindes, cavaleiro, neste pranto debulhado? |
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--Senhora, eu choro a vida do senhor D. Felizardo. |
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--Viste tu a ele morto ou acaso amortalhado? |
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--Senhora, eu não o vi morto nem acaso amortalhado, |
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mas já o deixei perto do campo de S. Bernardo. |
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--Aceitai este animal para andar mais apressado, |
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para ver si ainda salvo a vida de Felizardo. |
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. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . |
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--Às onze horas do dia vinte léguas tenho andado. |
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--Foi por mim que te perdeste, sendo tu meu namorado? |
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Por ventura será este o meu bem, D. Felizardo?-- |