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****--Que fazeis aqui, senhora, tão gentil e delicada, |
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com chapelinho à maltesa, saia de lã recortada? |
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Quem pelos endros da serra anda assim tão bem trajada, |
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ou é princesa dos bosques ou donzela enamorada. |
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Dizei, dizei, donzelinha, onde é vossa albergada; |
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embora longe ela seja, lá mesmo sereis levada. |
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Se pai e mãe `inda tendes, eles me darão pousada, |
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que já minh` alma não pode andar de vós apartada. |
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Cativaram-me esses olhos e as vossas faces rosadas, |
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renderam-me os vossos cantos quando los eu escutava |
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junto às margens da ribeira em que vos vira assentada. |
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--Deixai-me, senhor, deixai-me andar só por esta estrada, |
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que a pastora que aqui vedes anda alegre e bem cuidada. |
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Não é princesa dos bosques nem donzela enamorada, |
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vive feliz sem amores, com amores não tem nada. |
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Saí, saí destas selvas, que aqui não achais pousada. |
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--Não me aparto, não, donzela, antes que venha a alvorada; |
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Já que vos vi tão louçana, haveis de ser adorada. |
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--Não me enganam vossos olhos nem vossas doces palavras; |
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amor assim não se cria numa hora tão minguada. |
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Ai, não vos quedeis, senhor, vos rogo por vossa alma.-- |
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A donzela assim pedia, e a pedir bem que chorava; |
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rendida, já tão rendida estava a triste, coitada. |
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Cavaleiro, que isto ouvia, não mais que suspiros dava, |
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até que mais não podendo em seus braços a estreitava. |
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Já não resiste a donzela, nem já pranto derramava. |
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Tudo é brandura; o receio todo em amor se tornava. |
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Dali se parte o mancebo com pensar que `inda voltava, |
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e do peito da donzela uma rosa lhe levara. |
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Indo pela estrada avante mal que via a mesma estrada, |
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que a noite vinha tão negra que a muito custo enxergava. |
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Lá em meio do caminho grande traição era armada: |
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perro vilão sai-lhe à frente, de lado a lado o varava. |
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Cai por terra o cavaleiro e morto ali se quedara. |
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O vilão, que morto o vira, atrás logo se voltara, |
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trazendo na mão a rosa que o cavaleiro levara. |
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Acabada a negra noite o novo dia alvorava; |
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a pastora, com amores, em vez de dormir sonhava. |
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Mal o sol era a romper já ela vinha toucada. |
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Desce à margem da ribeira e, entre flores assentada, |
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lembram-lhe ali as venturas que pouco antes gozara, |
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e ao som d` água que corria estas saudades cantava: |
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--Onde estarás, cavaleiro, alma de mim tão cuidada, |
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que não vens matar saudades que me cá deixaste n` alma? |
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Onde estão esses teus olhos, onde está tua palavra, |
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que juraste ser voltado logo ao raiar d` alvorada? |
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Ai pobre da minha vida, ai pobre de mim, coitada; |
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mal começo a ter amores, eis-me triste e desgraçada!-- |
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Junto de uma alfarrobeira o perro vilão estava; |
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quantas mágoas mais ouvia, bem mais ele se enraivava. |
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Amava ele a pastora e, como ela o não amava, |
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por vingar-se dele e dela esta nova assim lhe dava: |
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--Senhora, minha senhora, porque estais tão magoada? |
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Se chorais só pela rosa que há pouco vos foi roubada, |
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ei-la aqui; no vosso peito seja de novo guardada. |
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Cavaleiro que a roubou já com a vida a pagara; |
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mal lhe tocou este ferro, logo em terra se quedara.-- |
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Ela, ouvindo uma tal nova, quer falar, porém não fala; |
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foge-lhe a luz d` ante os olhos, dá-se em terra desmaiada. |
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O vilão, que assim a vira, jurou de não mais amá-la. |
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Como em sinal de desprezo, ei-lo que vai de abalada, |
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deixando-lhe sobre o peito a rosa, mas desfolhada. |
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Dizem que a triste donzela por morta logo ficara, |
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e que passado algum tempo mesmo ali a soterraram, |
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que sobre a cova nascera uma roseira encarnada, |
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e que as rosas, que eram muitas, toda a serra perfumavam. |