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Andava a pobre cabreira o seu rebanho a guardar |
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dês que rompia o dia até a noite fechar. |
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--De pequenina no monte nunca tive outro brincar; |
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nas canseiras do trabalho meus dias vira passar. |
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Mas ao desviar meus olhos vi coisa que fez pasmar.-- |
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u~a cabra toda branca se lhe fora aos pés deitar. |
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Branca toda como a neve que nasce e deixa ficar, |
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coberta de finas sedas que era coisa singular. |
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Nunca a tinha visto antes no seu rebanho a aguardar |
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e foi p`ra fazer festas e foi p`ra a afagar. |
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Aí vai a cabra a fugir pelos vales, sem parar, |
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e a cabreira atrás dela sem na poder alcançar. |
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Andaram assim três dias e três noites, sempre a andar, |
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até que às portas dum paço afinal foram parar. |
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Chorava o rei e a rainha há dez anos sem cessar, |
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que lhes roubaram a filha nu~ a noite de luar, |
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há dez anos já passados sem mais dela ouvir falar. |
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Aí chega a cabreira à porta, à porta se foi sentar. |
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--Ai que bonita cabreira vejo acolá em baixo estar |
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e u~a cabra toda branca que nem se deixa ficar! |
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Pela minha coroa d` ouro quero agora apostar |
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que é esta a filha roubada nu~a noite de luar. |
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Milagre, quem tal diria, quem tal o possa contar!-- |
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E a cabreira toda branca ali se pôs a falar: |
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--É esta a filha roubada nu~a noite de luar; |
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há dez anos num monte quem nasceu para reinar.-- |
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Vêm damas para a vestir, vêm damas para a calçar, |
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e a mais prendada de todas para as tranças lh` enfeitar. |
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Vêm em procura da cabrinha, mas não a puderam alcançar; |
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mas um anjo d` asas brancas viram aos céus a voar. |