| |
O mundo ralha de tudo, tenha ou não tenha razão; |
| 2 |
vou-vos contar uma história em prova desta asserção. |
| |
Partindo um velho campónio do seu monte ao povoado, |
| 4 |
levando um neto que tinha no seu burrinho montado, |
| |
encontra uns homens que dizem: --Olha aquele que tal é! |
| 6 |
O tamanhão do burrinho e o pobre pequeno a pé! |
| |
--Eu me apeio.-- diz, prudente, o velho, de boa fé |
| 8 |
vai o burro sem carranca e vamos ambos a pé. |
| |
De tudo nos têm ralhado e agora o que mais nos resta: |
| 10 |
peguemos no burro às costas, façamos `inda mais esta.-- |
| |
Pega no burro o bom velho, pelas mãos ergue-o do chão; |
| 12 |
pega-lhe o rapaz nas pernas e assim caminhando vão. |
| |
--Olhem dois loucos varridos!-- ouvem com grande sussurro. |
| 14 |
--Tornando o mundo às avessas, tornados burros do burro!-- |
| |
Então o velho pára e exclama: --Do que observo me confundo; |
| 16 |
por mais que a gente se mate nunca tapa a boca ao mundo. |
| |
Rapaz, vamos como dantes, sirvam-nos estas lições; |
| 18 |
é mais que tolo quem dá ao mundo satisfações.-- |