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****Sendo em terra de Moirama surpreendido um paladim, |
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como escravo foi levado ao nobre miramolim. |
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Tinha o rei moiro uma filha bem mais alva que um jasmim; |
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lindos eram os seus olhos, o seu corpo mui gentil. |
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Certo dia olha Celima para as torres de Safim, |
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viu estar o pobre escravo pensativo andando ali. |
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O que n` alma ela sentira bem o quisera encobrir; |
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chorava a triste, chorava, que se não podia ouvir. |
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Desde então seus passatempos não a podem distrair, |
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que lá estão seus amores que tanto a fazem sentir. |
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Sobre as torres do castelo passa os dias `té ao fim |
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para ver o pobre escravo trabalhando no jardim. |
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A princesa mais não pode sua paixão comprimir; |
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quanto amor sente em seu peito ao cristão vai descobrir. |
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Porém ele não responde, à princesa nada diz, |
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recorda só os amores que tinha no seu país. |
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Dado ao seu constante enojo, de Celima nada quis; |
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de rijo bronze é seu peito, que não se deixa ferir. |
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Vendo que amor o não vence, ela então lhe fala assim: |
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--Todo meu oiro e riquezas o serão também de ti, |
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para resgatar teu corpo que me cativou a mim. |
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Dize-me, cristão, não queres? Ai dize-me não ou sim. |
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--Eu não quero o vosso oiro nem quanto há por aí, |
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que do meu país, senhora, há-de ele chegar aqui. |
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--Se não queres o meu oiro nem quanto vês por aqui, |
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então serei tua escrava para em tudo te servir. |
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Dize-me, cristão, não queres? Ai dize-me não ou sim. |
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--Para escrava eu vos não quero; que Deus vos dê melhor fim. |
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Senhora, minha senhora, como errais, e errais por mim! |
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--Se o meu Deus tu não quiseres nem meu pai miramolim, |
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eu amarei o teu Deus, teu pai o será de mim. |
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Dize-me, cristão, não queres? Ai dize-me não ou sim. |
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--Não quero os vossos amores, nem as riquezas daqui, |
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que mais amor e riquezas tenho eu no meu país. |
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Mal haja a hora, mal haja, em que eu para aqui vim. |
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Perco um` alma para Deus, um coração para mim. |
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Ficade-vos pois embora, que para vós não nasci.-- |
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Quando ela ouviu tais palavras, jurou vingar-se por si; |
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ao cabo de sete dias morto era o paladim. |
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Se foi traição da princesa, `inda se não sabe ali. |