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--Senhor, quero-vos pedir por Deus e Santa Maria, |
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que me leveis convosco, ainda que o não merecia: |
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Servir-vos-ei como escrava sempre de noite e de dia. |
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Deu-lhe uma cavalgadura das muitas que ele trazia; |
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chegou até ao palácio de sua mulher Sofia, |
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também lhe apresentou a senhora que trazia |
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e contou-lhe como a achara, que nada lhe mentiria. |
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Tomou-lhe um grande amor [. . . . . . . . . . . .] |
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e mais do que a uma irmã ela muito lhe queria. |
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Até um menino de peito lhe deu para companhia. |
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Com ela ria e folgava sempre de noite e de dia. |
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Tinha este conde um irmão, por Natão se conhecia, |
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o qual, por esta senhora, graves penas padecia. |
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Ia-lhe a beijar a mão e ela toda se desvia. |
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--Essas cristalinas mãos d` aljôfar e pedraria |
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deixai-mas beijar, pois têm tanta valia. |
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--Retirai-vos diante de mim, não sejais de vilania, |
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senão digo-o ao senhor conde que em mim muito se fia.-- |
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Retirando-se à pressa, já vê-la não poderia, |
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e dizia lá consigo: --Mas como eu me vingaria!-- |
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Estando ela no seu quarto, como a ninguém temeria, |
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queixando-se da desgraça que tanto a perseguia: |
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--Sendo eu tão senhora, que no mundo não havia!-- |
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Agora numa vassala, numa escrava se via. |
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`Stava o malvado espreitando como o inocente dormia. |
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Foi-se direito à cama onde o sobrinho dormia, |
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deixou-o logo morto, nem com pé nem mão bulia. |
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Matou c` o cutelo na mão o inocente que dormia. |
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Vendo-o banhado em sangue que até pela boca corria, |
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começou logo a gritar: --Valha-me a Virgem Maria! |
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Acudi-me, senhor conde, e minha amiga Sofia; |
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mataram vosso menino, minha doce companhia!-- |
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O primeiro que apareceu foi Natão. Assim dizia: |
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--Ó malvada, pois mataste a quem eu tanto queria? |
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Eu quero ser o assassino, quero fazer o que devia!-- |
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O conde estava pasmado de tanta cousa que via. |
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Dizia: «Eu não acredito» à sua mulher Sofia. |
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Quem tal crime cometeu grande mal lhes queria. |
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--Pois ainda duvidais de tão negra vilania? |
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Pois não vedes, senhor conde, que ela tudo isso faria?-- |
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--Vós não vedes o seu rosto desfigurado, de pedra fria? |
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Pois já que tanto ateimais, matá-la não consentiria. |
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Levai-a para a floresta aonde se encontraria, |
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que ali, de fome e de sede, sua culpa pagaria.-- |
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Para levar a senhora logo um navio apar`cia; |
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com as lágrimas nos olhos da terra se despedia. |
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Chegaram à floresta e lá a deixariam, |
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que ali, de fome e de sede, sua culpa pagaria. |