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--Meu padre cura, que eu rezar não sei; |
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fui à confissão, não me confessei. |
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--Não te confessaste, onde não hás-de ir? |
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És um penitente, Deus há-de acudir. |
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--Deus há-me acudir, não o sei dizer, |
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que me não ensina que lhe hei-de fazer. |
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--Que lhe há-des fazer? Dizes muito bem. |
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Dize-me, pastor, dize donde vens. |
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--Ó meu padre, eu venho c` o suor em bica; |
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tudo me ensinaram, eu nada me fica. |
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--Não te fica nada, o teu corpo sente.-- |
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(Já me está mentindo este penitente. |
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Este penitente eu vou desculpando:) |
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--Tu d` hoje em diante já hás-de ir rezando. |
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--Já hei-de ir rezando. --Palavra me destes; |
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o que tu querias é safar-te desta. |
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--Safar-me desta, bem dizia eu; |
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padre como este ainda cá não veio. |
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--Ainda cá não veio tão bonito caso! |
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Dize-me, pastor, o mal que t` eu faço. |
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--O mal que me fazes não é nada bom; |
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confessar ao padre, direi que é bem bom. |
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--Dirás que é bem bom, cabeça de vento, |
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confessar as freiras dentro do convento. |
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--Dentro do convento faço sentinela; |
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meia-noute à noute, eu durmo com ela. |
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--Dorme com ela, ninguém te acoite; |
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dize-me, pastor, que fazes à noite. |
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--Meu padre cura, são coisas sem dono; |
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deito-me na cama porque tenho sono. |
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--Isso não é sono, é grande priguiça; |
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dize-me, pastor, se assistes à missa. |
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--Ó meu padre cura, qu` eu não te engano; |
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assisto à missa uma vez no ano. |
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Uma vez no ano porque sou pastor; |
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eu vigio o gado, que é do meu amor. |
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--Ajoelha, pastor, dize a confissão. |
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--Frechada de leite, dentada de pão.-- |