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****Triste era um cavaleiro, mais triste ser não podia; |
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quedo estava ao pé do mar, assentado em pedra fria. |
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Com lágrimas e suspiros amargamente dizia: |
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--Destas praias arenosas vi fugir minha alegria, |
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quando as fontes do meu pranto vos perderam tão asinha. |
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Que força pôde apartar-me de ver-vos, senhora minha? |
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Como eu hoje vivo ausente de quem tanto me queria! |
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Ausente de mim estais, não da minha fantasia; |
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com os olhos de minh` alma vos contemplo noite e dia. |
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Com estes que me não vedes choro eu a flor da vida, |
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que no mar da desventura vai sem rumo, já perdida. |
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Ai, ausência, triste ausência, meu pesar, minha agonia, |
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porque o meu amor me escondes, que o não vejo onde soía? |
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Mal haja tão negra ausência, e mais esta pena minha, |
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que me faz camanha mágoa, camanha merencoria, |
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que tão longe me detêm de quem tanto ver queria. |
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Dizem que ausência é menor quando amor não tem valia, |
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mas este amor de minh` alma me cresce de dia em dia, |
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e com ele meus cuidados, e um pesar que não havia. |
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Hoje tenho só tristeza onde só tinha alegria; |
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descanso já não conheço, descansar não saberia. |
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Esperança, se a tivera, eu ainda viviria. |
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Tudo se me acaba agora, menos vida tão mofina. |
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Que mais perderei, senhora, a não ser esta existência, |
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que longe de vós não é, não é, não pode ser vida?-- |
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Dizem que o bom cavaleiro na viola assim tangia, |
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e que ao longe humana voz a tudo lhe respondia. |
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Olhava o triste, coitado, suspirava, e nada via, |
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a não ser o rijo mar que contra a terra se abria. |