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Alto Deus omnipotente, rei dos céus e flor da palma, |
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toda a vida andei cuidando de salvar a nossa alma. |
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Em nome de Deus, amén; e a Virgem Santa Maria, |
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ela chorava dizendo que o seu filho abrandaria. |
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--Ó meu filho mui amado, que mal fizeste aos judeus? |
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Rei dos Judeus vos chamaram antes do galo primeiro! |
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Cavaleiros traz consigo Judas, vosso dispenseiro. |
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Ente bispos e escrivães vos levaram, a dinheiro. |
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Que mal fizeste aos judeus, que tanto mal vos julgaram?-- |
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O ataram à coluna, seus cabelos arrancaram; |
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cordas lhe fiaram deles com que de rasto o levaram. |
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Sentaram-no numa cadeira, à morte o condenaram. |
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Antes do galo primeiro no vosso rosto escarraram! |
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Já vem a mulher Verónica. --Que é que por aqui buscais? |
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--Busco a esse homem que está preso, amarrado à coluna. |
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--Quanto sangue por `i está, olha bem por essa rua. |
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--Vosso sangue derramado, meu Deus, sem culpa nenhuma! |
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Oh Jesus que leva a cruz, tão pesada que ela é! |
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Nem sete homens a levaram; filho, sozinho é que a levas!-- |
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Passos que dava Jesus, todo o chão ajoelhava; |
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logo o Senhor se alevanta com açoutes que lhe davam. |
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Lá vem a Nossa Senhora toda cheia de tristura, |
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que ela no planto dizia pela Rua da Amargura: |
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--Oh sangue tão precioso gerado em minhas entranhas! |
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Um pingo dele bastava p`ra remir culpas tamanhas! |
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--Onde vás por essa rua, onde vás, mulher tão pura? |
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Fartai-vos bem de me ver pela Rua da Amargura. |
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Morto me vereis levar amanhã à sepultura. |
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Aí fica S. João, que é o vosso sobrinho; |
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ele vos tomará por mãe, vós o amareis por filho. |
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--Como é que posso trocar, fazendo o vosso mandado, |
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filho de Deus verdadeiro pelo filho de um vassalo?-- |
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Foi-se a Senhora embora, a andar de rua em rua, |
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com o planto que fazia `té chegar à da Amargura, |
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quando viu estar seu filho preso e atado à coluna. |
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--Ó falsos, enganadores, que escrevestes aos fariseus! |
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Soltem a Cristo por nós, que não fez mal aos judeus. |
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Ó mulheres, ó mulheres que tendes filhos criado, |
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que sabeis a dor que é a morte de um filho amado, |
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ajudai-me a carpir, que o meu planto é acabado.-- |
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Quem o meu planto souber e escrito o trouxer também, |
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ganhará tantos perdões como areias o mar tem, |
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como ervas tem o campo, como areias tem o prado. |
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Quem o souber que o diga, quem o ouvir que o aprenda; |
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lá no Dia do Juízo verá o que ele defende. |
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Quem minha oração souber, todo o ano a dirá; |
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se no sentido a trouxer má morte não morrerá |
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nem d` água será vencido nem terá medo ou pavor |
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e nem dos mouros cativo, e, quando do mundo for, |
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um coro de anjos o guia ao pé de Nosso Senhor. |