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Namorava u~a fadista, trazia-a na mocidade; |
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falava-l` à meia-noite, todos os dias à tarde. |
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Um dia le preguntei se na sua casa tinha entrada; |
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ela me disse que não, tudo isso me matava. |
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Eu tornei-l` a preguntar por qual era a razão. |
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--Se não logro o meu desejo, morro com esta paixão. |
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--Se na minha casa entrasses, ai de mim, tu que farias? |
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Gozavas carinhos meus e casar comigo não querias. |
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--Caso, sim, querida dama, digo-te até de quem sou; |
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trago os meus sentidos perdidos qu` eu já nã sei onde estou. |
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--Vem-te cá para os meus braços, olhinhos encantadores; |
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fazes as coisas tão fáceis, mas não lhe dás o valor.-- |
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E desceu pel`u~a escada e me pegou pela mão, |
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me levou para u~a sala para u~a cama d` estadão. |
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Sentei-me nu~a cadeira a par du~a luz divina; |
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cinco sentidos que eu tinha empreguei-os na menina. |
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O primeiro é ver essa tua fermesura; |
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no céu vi o teu retrato, no mundo a tua pintura. |
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O segundo é ver esse teu lindo olhar; |
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oh que boquinha do céu onde os meus beijos vou dar! |
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O terceiro é cheirar o cheiro da mesma rosa; |
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corri-lhe a mão pelo rosto, oh que carinhosa formosa! |
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E o quarto é ver quando o barco se faz de vela; |
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corri-lhe a mão pelos peitos e cheguei meu corpo ao dela. |
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O quinto é ver q`ando o barco se deita ao mar. |
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--Menina, levantai panos, quero agora navegar.-- |
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Toda a noite naveguei sem nunca poder dormir; |
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quando foi pela manhã `tava em estados de cair. |
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Eu então lhe perguntei se lhe devo algu~a coisa. |
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--Deve-me a sua mão direita, quero ser a sua esposa. |
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--Deixa-m` ir daqui embora, deixa-me daqui ir; |
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não quero qu` o mundo diga que me deixaste aqui dormir. |
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Deixa-m` ir daqui embora, qu` eu sou vassalo do rei; |
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agora já estou bem pago das noites perdidas que por ti dei. |
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--Vai-te, falso, vai-te, falso, eu estava donzela e pura; |
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se não casares comigo, o mais seja tua sepultura. |
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Vai-te, falso, vai-te, falso, gozastes carinhos meus; |
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irás para o pregatório dar essas contas a Deus. |
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--S` eu for p`ra o pregatório, hei-d` ir com boa tenção; |
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espero que Deus me faça como fez ao bom ladrão. |
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Para as torradas manteiga, para o fastio limão; |
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todas as facadas têm cura dadas pela minha mão.-- |