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****Ao campo se vai Jacinta manhanita de San João, |
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com seu borzeguim de seda e saia cor de limão. |
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Para a ver se erguera o sol, as aves cantando vão; |
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Jacinta, a flor das campinas, sobre as flores corre a mão. |
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Uma capela tecera das capelas-de-San João, |
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da cheirosa madressilva, da verde murta em botão. |
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Não há ver melhor beldade, não há ver outro condão; |
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mais formosa que Jacinta outras formosas não são. |
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Em bailes começa o dia, todos correm à função; |
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a vilã deixa a cabana, a fidalga o seu balcão. |
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De amores todas se tocam nos requebros que se dão, |
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porém nenhuma aldeana inventa melhor canção. |
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Ao som da sua guitarra, que ternos amores vão! |
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Aqueles sons maviosos, todos diziam paixão! |
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Ninguém sabe se Jacinta, a folgar por San João, |
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da guitarra as cordas fere ou se as do seu coração. |
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Os festeiros que a rodeiam por ela morrendo estão, |
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todos lhe deitam cantigas, ela a todos dá de mão. |
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Para os bem desenganar canta os versos que aqui vão: |
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--Tenho o meu amor ausente nos campos de Marzagão. |
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Aqui só tenho saudades onde eu tinha o coração; |
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outros amores não quero, que os meus amores virão.-- |
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Cantava a linda serrana estas falas e mais não; |
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uma voz lhe respondera com fingida discrição: |
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--Os teus amores não voltam, cativos eles estão; |
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lá nos campos da Moirama os moiros los matarão.-- |
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Treme Jacinta escutando este funesto pregão; |
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sua mão, que era gelada, sente apertá-la outra mão. |
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Vai erguer seus lindos olhos, eis que dá com Dom Beltrão, |
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que vinha de matar moiros, dos campos de Marzagão. |
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A alegria que ela teve nem seus lábios o dirão! |
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Assim se acaba a Jacinta este dia de San João. |