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A vinte graus para o norte da linha equinocial,
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fica a cidade de Lisboa, corte de Portugal.
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Grande é o alicerce da maior opinião,
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de ter um seguro porto para todas embarcações.
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Nesta formosa cidade morava Martins de Bulhões,
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ilustre pelo seu sangue, dos seus antigos brazões.
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Quem ele era, bastava nascer do seu matrimónio:
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um filho peregrino, o milagroso Santo António.
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Amanheceu certo dia no topo da sua escada
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um homem que mataram de noite com uma estocada.
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Veio logo a justiça e o seu corregedor
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a fazerem vistoria e prender o matador.
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E como não o acharam prendem Martins de Bulhões,
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o arrastam p`r`à cadeia e o metem em grilhões.
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Tiraram logo devassa, pois era de obrigação,
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para ver si ele saía culpado na morte ou não.
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Sendo por falsas indústrias ou por falsas testemunhas,
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saiu culpado na morte não tendo culpa nenhuma,
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sem atenção nem respeito à sua idade e nobreza,
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nem ao menos à caridade que usava com a pobreza.
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Saiu-lhe a morte de forca, pois a lei assim ordena:
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que quem mata também morra, que padeça a mesma pena.
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Vendo-se nesta aflição, sem da vida ter esperança,
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recorreu à Mãe de Deus com mui grande confiança.
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--Ó Virgem, minha Senhora, por vosso esplendor, vosso brilho,
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ponde os vossos pios olhos em minha mulher e filho,
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pois vós muito bem sabeis que eu padeço inocente;
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e si vós disto for servida, aceito a morte contente.
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Toda a minha obrigação a vós deixo encomendada;
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como eu morro sem culpa, não fique desamparada.
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A todos os meus inimigos perdôo do coração,
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para que das minhas culpas alcancem de Deus perdão.--
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Dizendo estas palavras com amor e piedade,
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já o levavam para a forca pelas ruas da cidade.
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Chegando a certa paragem ao encontro sai um frade
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do hábito de S. Francisco com toda civilidade.
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--Justiça, eu te requeiro, pelo recto Juiz do Céu,
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que soltes este inocente, que nunca foi nem é réu.
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Si não quiseres crer, à verdade eu me reporto,
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pois a podeis ouvir falar por boca do próprio morto.
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--Só sendo desta maneira, ouvindo o morto aqui falar,
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é que nós outros poderíamos a este preso soltar.
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--Levanta-te, homem morto, pelo Deus que nos criou;
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anda, jura a verdade, si este homem te matou.
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--Este homem é inocente, e nunca a ninguém matou;
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antes me dava conselhos, pelo Pai que nos criou.--
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Ao fim destas palavras já o morto não se via,
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pois estava sepultado, já desfeito em terra fria.
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--Mandai-o logo soltar e o tirar da prisão fora;
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para onde quiser ir, deixai o preso ir embora.--
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E vendo os corregedores que nisto mal ficariam,
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voltaram-se ao religioso e desta sorte lhe diziam:
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--Meu reverendo padre, mandai o morto dizer
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quem foi o seu homicida, que nós o queremos prender.
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--Eu não vim aqui acusar, e só livrar um inocente;
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procurem por outra via, façam sua diligência.
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--Ó meu reverendo padre-- diz Martins--, onde morais,
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que vos quero visitar, pois não presto para mais?
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--Com isto muito me espanto e muito me maravilho:
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em meu pai não conhecer a Fernando, vosso filho.
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Eu me chamava Fernando, mudei o nome p`ra António
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para glória e amor de Deus e desprezar o demónio.
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--Ó filho meu tão amado, filho que o céu me deu,
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vem a meus braços, querido, abraça-me, ó filho meu.
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Que virtudes são as minhas, que merecimentos os meus,
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de chegar a ver um filho com os poderes de Deus?
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--Estando eu em Itália para fazer um sermão,
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um anjo me avisou dessa vossa situação.
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Deixei o hábito em meu lugar para falta não fazer,
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e vim a esta cidade para vos poder valer.
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Como já vos deixo livre, deitai-me, pai, vossa benção,
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que eu me vou para a Itália celebrar o meu sermão.
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--A benção de Deus te dou, e esta de minha mão,
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ó filho meu da minh` alma, filho do meu coração.--
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