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--Hoje s` apregoam guerras de França contra Aragão,
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cuitado de mim, sou velho, guerras já p`ra mim nã são.
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De duas filhas que tenho, sem nenhuma ser varão.--
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La mais moça respondeu, de seu forte coração:
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--Dai-me armas e cavalo, las guerras p`ra mim serão.
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--Tendes cabelos compridos, filha, conhece-rvos-ão.
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--Com tesoiras de talhar, cortados rentes serão.
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--Tende` los olhos formosos, filha, conhecer-vos-ão.
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--De mais formosos sei eu e que de mulher nã são.
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--Tende` lo rosto sem barbas, filha, conhecer-vos-ão.
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--Eu direi que sou mocinho e que las barbas virão.
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--Tende` lo rosto mui` alvo, filha, conhecer-vos-ão.
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--Nos três dias do caminho estes sóis lo queimarão.
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--Tende` los ombros erguidos, filha, conhecer-vos-ão.
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--Sejam las armas pesadas, que los ombros descerão.
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--Tendes peitos altaneiros, filha, conhecer-vos-ão.
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--Cingidos pela coiraça, los peitos abaixarão.
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--Tende` las mãos pequeninas, filha, conhecer-vos-ão.
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--De suas guantes calçadas, elas grandes parecerão.
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--Tendes largos los quadris, filha, conhecer-vos-ão.
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--Vão debaixo do saiote, homens nunca los verão.
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--Tendes também pernas grossas, filha, conhecer-vos-ão.
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--Apertadas na armadura, elas adelgaçarão.
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--Tende` los pés pequeninos, filha, conhecer-vos-ão.
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--Levo sapatos de ferro, não botas de cordovão.
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--Tendes nome de mulher, filha, conhecer-vos-ão.
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--Me chamarei D. Martinho, por homem me tomarão.
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Venham armas e cavalo, las guerras p`ra mim serão.--
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Vestida de suas armas, montando seu alazão,
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foi la donzela p`r` às guerras, que nem que fosse varão.
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No cabo de sete anos, pazes assentadas são,
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vestido de suas armas, montando seu alazão,
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passou à corte de França D. Martinho infanção.
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Filho d` elrei mal lo viu, morto ficou de paixão
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e, chegando a palácio, pede à mãe sua benção
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e lhe conta, em segredo, pena de seu coração.
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--Los olhos de D. Martinho, minha mãe, me matarão,
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no corpinho daquele homem los olhos de mulher são.
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--Convida-lo tu, meu filho, p`ra contigo merendar,
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que, se for ele mulher, de estrado se vai sentar.
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--Vinde, senhor D. Martino, comigo a merendar,
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neste estrado d` alcatifa bem vos podeis assentar.--
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D. Martinho, d` avisado, nã se deixou enganar.
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--Lindo estrado p`ra damas, quem las fora convidar!
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Estrado não é p`ra homens, nã me sei `i ajeitar.--
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Filho d` el-rei, que tal ouve, morto fica de paixão
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e, chegando a palácio, pede à mãe sua benção
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e lhe conta, em segredo, pena de seu coração.
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--Los olhos de D. Martinho, minha mãe, me matarão,
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no corpinho daquele homem los olhos de mulher são.
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--Convida-lo tu, meu filho, p`ra nos mercados comprar
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que, se for ele mulher, nos corais há-de enfeirar.
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--Vinde, senhor D. Martinho, nestes mercados comprar,
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olhai vermelhos corais, bem vos podeis enfeirar.--
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D. Martinho, d` avisado, nã se deixou enganar.
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--Lindos corais são p`ra damas, quem las fora convidar,
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corais nã servem p`ra homens, que só gostam de pelejar.--
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Filho d` elrei, que tal ouve, morto fica de paixão
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e, chegando a palácio, pede à mãe sua benção
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e lhe conta, em segredo, pena do seu coração.
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--Los olhos de D. Martinho, minha mãe, me matarão,
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no corpinho daquele homem los olhos de mulher são.
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--Convida-lo tu, meu filho, a ir no jardim passear
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que, se for ele mulher, de cravos s` há-de enfeitar.
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--Vinde, senhor D. Martinho, no real jardim passear;
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destes cravos, todos lindos, bem vos podeis enfeitar.--
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D. Martinho, d` avisado, nã se deixou enganar.
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--Lindos cravos são p`ra damas, quem las fora convidar,
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los homens nã querem cravos, mas rosas p`ra desfolhar.--
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Filho d` el-rei, que tal ouve, morto fica de paixão
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e, chegando a palácio, pede à mãe sua benção
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e lhe conta, em segredo, penas do seu coração.
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--Los olhos de D. Martinho, minha mãe, me matarão,
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no corpinho daquele homem los olhos de mulher são.
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--Convida-lo tu, meu filho, p`ra contigo se deitar,
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que, se for ele mulher, logo se há-de negar.
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--Vinde, senhor D. Martinho, comigo aqui vos deitar,
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nesta cama de lençóis ambos cabemos a par.--
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D. Martinho, d` avisado, nã se deixou enganar.
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--Linda cama p`ra mulher, quem la fora convidar,
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mas dois homens numa cama? Quem los mandara açoitar!--
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Filho d` el-rei, que tal ouve, morto fica de paixão
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e, chegando a palácio, pede à mãe sua benção
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e lhe conta, em segredo, pena do seu coração.
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--Los olhos de D. Martinho, minha mãe, me matarão,
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no corpinho daquele homem los olhos de mulher são.
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--Convida-lo tu, meu filho, a ir no rio nadar
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que, se for ele mulher, logo se há-de negar.
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--Vinde, senhor D. Martinho, comigo vinde nadar,
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nestas águas corredias ambos podemos brincar.--
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D. Martinho, d` avisado, nã se deixou enganar.
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--Águas doces são p`ra damas, quem las fora convidar,
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porém nã servem p`ra homens, senão águas de la mar.--
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Filho d` el-rei, que tal ouve, morto fica de paixão,
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nã foi sequer la palácio [sic], pedir à mãe la benção,
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desatou a suspirar penas do seu coração.
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--Vossos olhos, D. Martinho, sabeilo, me matarão,
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no corpinho sereis homem, los olhos de mulher são.--
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D. Martinho, namorado, nã pôde dizer que não.
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--Sete anos andei nas guerras de França contra Aragão;
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suspeitastes-me dos olhos, mas doutras suspeitas não.--
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Nisto vem um mensageiro uma carta lhe entregar.
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--Que tendes vós, D. Martinho, que tanto vos faz chorar?
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--Esta carta que me diz que meu pai está a acabar
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e duas irmãs que semos, semos ambas por casar;
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Se quereis sê` lo meu marido, minha mão vos quero dar.--
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Filho d` el-rei, que tal ouve, já nã morre de paixão
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e lá se vai a palácio, tomar da mãe la benção;
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lá se vai com D. Martinho, sem penas no coração.--
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